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Resumo
Este artigo apresenta algumas considerações sobre a conceitualização do complexo de Édipo no encontro com os estudos sobre os feminismos, abordando alguns eixos de tensões e aberturas. A partir da escuta clínica e dos discursos sociais e subjetivos contemporâneos, o artigo propõe colocar em movimento algumas problematizações clínico-políticas.


Palavras-chave
complexo de Édipo; diferença sexual; sexualidade feminina; feminismos; lutas identitárias.


Autor(es)
Maria Carolina Accioly de Carvalho e  Silva

é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, no qual participa do grupo "O feminino e o imaginário cultural contemporâneo" e do GTEP?- Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise do Departamento de Psicanálise.




Notas

1.S. Freud, "A dissolução do Complexo de Édipo", in Obras completas, v. 16.

2.Que serão citadas(os) no decorrer do texto, e ressalto minha rica interlocução no grupo "O feminino e o imaginário cultural contemporâneo", no qual pesquisamos atualmente este tema.

3.S. Alonso, "Interrogando o feminino", in Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo.

4.Ressalto as ideias precursoras de Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges (séc. XVIII) e, no Brasil, Nísia Floresta (séc. XIX). Importante reconhecer que antes dos movimentos organizados houve mulheres que lutavam contra as formas de opressão, e que tiveram suas narrativas apagadas ou arquivadas.

5.G. Rubin, "Pensando o sexo", in Políticas do sexo.

6.G. Deleuze e F. Guattari, O anti-Édipo, p. 86.

7.A história do feminismo aparece muitas vezes dividida em ondas ou gerações, a primeira seria a do fim do século XIX, início do século XX (sufragistas). A segunda onda seria a da década de 1960/70, marcada pela luta por maior igualdade, liberdade social e sexual (época de Simone de Beauvoir), e a terceira, já na década de 1990, se apresenta como feminismo das diferenças, com nomes importantes da contemporaneidade como Judith Butler.

8.J. Butler, Problemas de gênero, p. 33.

9.Sobre o essencialismo, acompanhamos na obra freudiana o debate contínuo entre o filogenético e o ontogenético, a noção de série complementar que desenha a complexa constituição humana no encontro com o outro. Para a psicanálise, o ser humano é um ser complexo, social e singular; cindido, em grande parte inconsciente; sujeito-sexual-político.

10.    S. Alonso, "Sexualidade: destino ou busca de uma solução?", in Corpos, sexualidades, diversidade, p. 18.

11.    T. Ayouch, Psicanálise e homossexualidades, p. 104.

12.    Em psicanálise, falamos em função paterna e função materna, que não equivalem às figuras do pai e da mãe necessariamente, ainda assim estou aqui problematizando o efeito e o alcance da escolha por estes termos.

13.    S. Freud, "A dissolução do Complexo de Édipo", p. 211.

14.    S. Freud, "A feminilidade", p. 268.

15.    A feminilidade é um conceito amplo para a psicanálise que abrange desde o tornar-se mulher e a sexualidade feminina, até o registro erógeno do desamparo como um registro psíquico diferente do fálico, como explorado por Birman (1999).

16.    Segundo Freud, atividade e passividade estão presentes tanto em homens como em mulheres.

17.    S. Freud, "A organização genital infantil", p. 175.

18.    S. Freud, Manuscrito inédito de 1931, p. 45, 47.

19.    S. Freud, "A organização genital infantil", "Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos".

20.    S. Freud, "A feminilidade", p. 334.

21.    S. Freud, op. cit., p. 335.

22.    A.M. Sigal, "Algo mais que um brilho fálico. Considerações acerca da inveja do pênis", in Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo.

23.    S. Alonso, "Interrogando o feminino", in Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo.

24.    L. Irigaray (Este sexo que não é um sexo: sexualidade e status social da mulher) denuncia a violência discursiva falocêntrica ao supor que o clitóris é um pequeno pênis, sendo que o clitóris é parte do órgão sexual feminino e participa do prazer sexual vaginal, e não um pênis defeituoso, inferior.

25.    J. Benjamin, La sombra del otro: intersubjetividad y género en psicoanálisis, p. 104, 105. 

26.    A.M. Sigal, "Ainda psicanálise no campo da sexuação!", in Corpos, sexualidades, diversidade, p. 140.

27.    G. Kilomba, Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano.

28.    S. Alonso; M. Fuks, "A construção da masculinidade e a histeria nos homens na contemporaneidade", in Histeria e gênero, p. 245.

29.    J. Butler, op. cit., p. 66.

30.    Sobre essa discussão, ver também o vídeo de C. Dunker dialogando com essa pergunta formulada por V. Iaconelli. Disponível em: youtu.be/bvB6wgWQaB0>.

31.    A.M. Parente, "Fricção entre corpo e palavra: crítica ao Moisés de Freud e Lacan", in Freud e o patriarcado, p. 154.

32.    M.R. Kehl, Deslocamentos do feminino, p. 265.

33.    M. Caffé, "Norma e subversão na psicanálise: reflexões sobre o Édipo", Percurso n. 60, p. 109, 110.

34.    M. Caffé, op. cit., p. 110, 111.

35.    J. Gondar, Psicanálise, feminismos e a questão da diferença.

36.    J. Lacan, Seminário 5: As formações do inconsciente.

37.    P.B. Preciado, Um apartamento em Urano: crônicas da travessia.

38.    T. Ayouch, op. cit., p. 22.

39.    J. Laplanche, 2015.

40.    Abraham, Klein e Horney formavam um primeiro grupo de analistas críticos à formulação freudiana da sexualidade feminina. Abraham questionava se ali onde Freud apontava um desconhecimento da vagina não haveria na verdade um recalcamento (J. André, As origens femininas da sexualidade). O desenho anatômico das inervações do clitóris só ficou conhecido no fim do século XX, e ainda que existam registros de saberes sobre a genitália feminina em culturas antigas, um tanto desse conhecimento fora reprimido ou recusado na modernidade (L. Stromquist, A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado).

41.    Ainda que o falo não represente exatamente o pênis e sim o símbolo de um pênis entumecido satisfazendo uma vagina, ou seja, o falo representaria uma ilusória complementaridade sexual. Quanto a isso, ver link na nota de rodapé 30.

42.    Ações afirmativas são políticas de reparação instituindo "tratamento preferencial em favor daqueles mesmos grupos de humanos vítimas de injustiça. Essa política repousa na ideia de que, para reparar uma desigualdade, convém valorizar uma diferença contra outra diferença" (J. Derrida e E. Roudinesco, De que amanhã: diálogo, p. 39).

43.    J. Butler, op. cit., p. 22.

44.    T. Ayouch, op. cit., p. 87.

45.    J. Butler, Corpos que importam: os limites discursivos do "sexo", p. 319.

46.    J. Butler, op. cit., p. 361.

47.    J. Derrida e E. Roudinesco, op. cit., p. 35.

48.    J. Butler, op. cit., p. 366, p. 367.

49.    J. Derrida, Mal de arquivo: uma impressão freudiana, p. 16, nota de rodapé.

50.    J. Derrida, op. cit. Arcônticos remete a Arque, que designa começo e comando. Abrigo da história e dos princípios, a palavra arquivo remete ao Arkheion grego "a residência dos arcondes, aqueles que comandavam" e que tinham o poder de interpretar os arquivos (p. 12).

51.    J. Derrida, op. cit., p. 123.

52.    O poder patriarcal dos arcondes (Derrida, op. cit.).

53.    G. Kilomba, op. cit., p. 108.

54.    S. Alonso, De quem é o corpo da mulher? Disponível em: .

55.    J. Butler (Corpos que importam: os limites discursivos do "sexo"), sobre o termo Queer, que se tornou afirmativo, formula perguntas instigantes: "Se agora o termo é submetido a uma reapropriação, quais são as condições e os limites dessa inversão significante? [...] O termo pode superar sua história constitutiva de ofensa?" (p. 369).



Referências bibliográficas

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Stromquist L. (2018). A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado. São Paulo: Quadrinhos na Cia.





Abstract
Oedipus complex; sexual difference; female sexuality; feminisms; identities fights.


Keywords
This article presents some considerations about the conceptualization of the Oedipus complex in the encounter with the feminisms, in some axes of tensions and openings. Based on clinical listening and contemporary social and subjective discourses, the article proposes to set in motion some clinical-political problematizations.

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 TEXTO

Édipo e feminismo: tensões para serem sustentadas pela Psicanálise

Oedipus and feminism: tensions to be sustained by Psychoanalysis
Maria Carolina Accioly de Carvalho e  Silva

A conversa e os conflitos entre psicanálise e feminismo não são recentes. Freud[1] reconhece reinvindicações de emancipação das mulheres no mesmo parágrafo em que afirma que anatomia é destino, essencializando, nesse ponto da teoria, a inveja do pênis como condição do processo de sexuação feminina.

 

Este trabalho pretende trazer algumas considerações sobre esse território polêmico e potente, do qual, penso, não devemos nos esquivar, tampouco nos precipitar. Escolho um caminho difícil e frutífero, compartilhado por muitos colegas[2], de sustentar as tensões nas fronteiras e nos impasses com os quais a psicanálise se repensa, e assim se mantém viva e pulsante.

 

Os discursos feministas e os estudos de gênero convocam a uma problematização sobre alguns conceitos psicanalíticos e sobre as formulações clínicas decorrentes daqueles. A meu ver, a psicanálise se propõe a ser trabalhada constantemente a partir das questões clínico-políticas de seu tempo. Compartilho a intenção de manter uma postura crítica na leitura, na transmissão e na clínica psicanalítica, reconhecendo possíveis pontos cegos ou sintomas a serem desconstruídos[3], sem sucumbir às críticas generalistas que desvalidam a importância revolucionária da psicanálise, tampouco numa defesa arraigada a conceitos universais como se fossem inquestionáveis.

 

Considero que é uma posição ética manter o pensamento vivo e não dogmático, e ter o cuidado de não deixarmos a teoria psicanalítica ser usada para formalizar normatizações. De que forma e em que amarrações conceituais a psicanálise pode se colocar enquanto uma teoria essencialista? E como trabalhar em necessárias desconstruções sem descartar elementos fundamentais da teoria?

 

Quando a psicanálise surge no fim do século XIX, o mundo está em fervorosa transformação?- pós-revoluções do século XVIII e rumo às grandes guerras do século XX. A psicanálise se constitui em movimento, não se trata de um aparato conceitual fixo e estático. Ela emerge como um pensamento revolucionário, escutando mulheres histéricas, afirmando a existência do inconsciente e da sexualidade infantil, denunciando a moral repressora do fim do século XIX. Entre as inúmeras crises emergentes, o feminismo começa também a se organizar como movimento[4] desde o fim do século XVIII, evidenciando o declínio do patriarcado, em processo desde o início da modernidade.

 

Enquanto os feminismos denunciam e transformam as relações de gênero[5], ou seja, o lugar histórico de opressão das mulheres, a psicanálise se ocupa da sexualidade enquanto registro pulsional e constitutivo do humano. A psicanálise também se apresentou como um pensamento libertário do século XX, e nesse ponto há um encontro com os feminismos enquanto movimentos de emancipação subjetiva. Como disseram Deleuze e Guattari, os movimentos de libertação portam "a força do próprio inconsciente, o investimento do campo social pelo desejo, o desinvestimento das estruturas repressivas"[6].

 

O feminismo atual, chamado de quarta onda[7] por algumas pensadoras e ativistas, feminismo da interseccionalidade das diferenças, das multiplicidades, das lutas identitárias, demanda um lugar de fala. E um lugar de fala supõe um lugar de escuta. Ao denunciar que a História foi escrita por homens brancos, que todo saber e poder filosófico, médico, jurídico e religioso foi destinado aos homens por séculos, e que, portanto, é preciso abrir espaço para as mulheres narrarem e mudarem de posição, o feminismo produz efeitos na produção de subjetividades. Por outro lado, algumas formas de feminismo podem produzir efeitos defensivos e conservadores, quando, às vezes, se expressam num discurso fechado e totalizante, calando homens e mulheres. Como disse Butler: "A crítica feminista tem de explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculina, mas também deve permanecer autocrítica em relação aos gestos totalizantes do feminismo"[8]. A psicanálise, por sua vez, tem como direção ética na construção de seu pensamento problematizar e abrir brechas quando emergem possíveis movimentos totalizantes, possibilitando uma escuta crítica dos discursos contemporâneos.

 

Esse ponto nos interessa porque escutamos na clínica muitas vezes um conflito entre um discurso consciente politizado e os movimentos desejantes do sujeito, as ambivalências e os impasses nos encontros e desencontros afetivos. Escutamos por vezes alguns posicionamentos feministas produzindo um efeito moralizante e "des-libidinizante", por exemplo, em uma leitura feminista na qual a heterossexualidade (num sistema patriarcal capitalista) sempre se expressa como violência opressora e como heteronormatividade. Dessa forma o consentimento nunca seria legítimo, já que estamos inseridos num sistema de poder que dessubjetiva as mulheres. E assim corre-se o risco de não suportar a importância das dúvidas nos caminhos singulares da sexualidade, e se escorregar rapidamente para certezas precipitadas. Ainda que essa leitura feminista abarque uma verdade incômoda sobre a normatização da heterossexualidade, que também foi de certa forma construída pela psicanálise, é importante que seja dita, escutada e discutida. Ao mesmo tempo, esse discurso pode impossibilitar a circulação da libido heterossexual fora dessa abordagem.

 

Psicanálise e feminismo?- eixos de interlocução

Após esse mapeamento inicial nesse campo inquietante, vou trazer alguns eixos que vêm sendo trabalhados por diversas(os) autoras(es) e que potencializam essa interlocução da psicanálise com outras áreas de pensamento. Críticas e provocações surgem dentro e fora do movimento psicanalítico, convocando as(os) psicanalistas para colocarem em trabalho algumas teorizações tidas como universais. A própria ideia de universalidade em si já aponta um sistema de pensamento que coloca a diferença em termos binários e desiguais, e tem sido problematizada.

 

Pretendo abordar alguns pontos de intercâmbio e de tensão entre os estudos psicanalíticos sobre o Édipo e os estudos sobre os feminismos. O complexo de Édipo e os processos de sexuação formam uma rede conceitual inquietante no encontro da psicanálise com o feminismo. A psicanálise considera a inscrição psíquica da diferença anatômica como prerrogativa da entrada na ordem simbólica, ou seja, o complexo de Édipo e o complexo de castração marcam uma diferença no processo de sexuação e de subjetivação dos homens e das mulheres. Diferença que parece naturalizada quando apoiada na diferença anatômica, e que se mostra complexa, afinal o corpo anatômico é fundamentalmente fantasmático ao carregar a história pulsional e singular do sujeito. O complexo de Édipo mantém o par de opostos fálico-castrado como o organizador fundante do psiquismo e da entrada na cultura inscrevendo as diferenças, muitas vezes binárias e hierárquicas, na constituição do homem e da mulher.

 

Ao universalizar o complexo de Édipo e o falocentrismo que ele representa, a psicanálise mantém conceitos e nomenclaturas que parecem em muitos momentos essencializar[9] o lugar que as mulheres ocupam no imaginário cultural durante séculos. Os estudos sobre gênero questionam "as teorias essencialistas sobre os sexos, a naturalização dos corpos"[10] e "vêm recordar à psicanálise o valor da desconstrução, na verdade totalmente psicanalítica, de certas das suas categorias"[11]. Dizer que a mulher é um enigma indecifrável, que a função[12] paterna é a função civilizatória que interdita o incesto e produz um corte necessário na dupla simbiótica mãe-bebê, que o supereu das mulheres é mais frágil, ou que as mulheres com explícitas manifestações de força, ousadia, coragem, posicionamento e sucesso ou as mulheres que escolhem não ser mães e que se dedicam muito ao trabalho são masculinas ou fálicas, e mais, que o feminismo é uma manifestação defensiva da inveja do pênis?- são alguns entre tantos dizeres que foram se naturalizando na cultura, também a partir da psicanálise.

 

Freud, diante das manifestações feministas de sua época, chegou a afirmar que "a exigência feminista de igualdade de direito entre os sexos não vai longe, a diferença morfológica tem de manifestar-se em diferenças no desenvolvimento psíquico", seguindo a famosa e polêmica frase "anatomia é o destino"[13], como apontado acima.

 

Entretanto, não devemos reduzir toda teorização freudiana a uma única linha de pensamento. Freud fundou a psicanálise escutando mulheres histéricas, assim como defendeu a participação ativa das analistas mulheres no movimento psicanalítico reconhecendo seus trabalhos e contribuições. Ele reconhecia o lugar de opressão social e repressão sexual em relação às mulheres e afirmou ser preciso "atentar para não subestimar a influência da organização social, que igualmente empurra a mulher para situações passivas"[14]. Mas a hipótese que Freud sustenta é que o horror à feminilidade[15], marcado num lugar desvalorizado ou idealizado da figura feminina no decorrer dos séculos, seria devido à castração feminina, à diferença anatômica, à suposta não representação psíquica do órgão genital feminino na fase fálica.

 

Quando ousamos decantar a rede de conceitos articuladas no complexo de Édipo, quais seriam os resíduos do processo? Pensando nessa imagem de resíduo, faz-se necessário um estudo constante: com muitos retornos a Freud para reencontrar as zonas de tensão em sua obra, escutar os novos pensamentos e críticas que emergem, e, principalmente, o que a clínica e a cultura contemporânea nos apresentam.

 

Complexo de Édipo?- conceito fundamental

O complexo de Édipo é um conceito fundamental por marcar esse tempo lógico instituinte do sujeito, do psiquismo, tempo de transição do narcisismo para as relações objetais e sociais, transição do registro do Eu ideal para o Ideal do Eu, do duplo-fusional para o ternário-simbólico, tempo de inscrição da alteridade, da diferença, da falta e da lei que vale para todos. O complexo de castração e o falo enquanto significante da falta são organizadores da sexualidade infantil perversa polimorfa. O recalque dos desejos incestuosos e parricidas possibilitam que o sujeito se posicione no laço social cultural, constituindo uma posição sexuada.

 

As equações simbólicas que conectam atividade com masculino e passividade com feminino estão presentes em toda a obra freudiana[16], gerando por vezes alguns impasses. Freud diz que a polaridade sexual aparece em oposições como sujeito e objeto na escolha objetal, como ativo e passivo na fase pré-genital sádico-anal, como fálico e castrado na fase fálica, e diz que:

 

apenas ao completar o desenvolvimento, na época da puberdade, a polaridade sexual coincide com masculino e feminino. O masculino reúne o sujeito, a atividade e a posse do pênis, o feminino assume o objeto e a passividade. A vagina é então estimada como abrigo do pênis, torna-se herdeira do ventre materno[17].

 

Ele aponta a complexidade dessa polarização ao dizer que:

 

a libido, desde que não tenha se mantido narcísica, se distribui em relações objetais tanto masculinas quanto femininas [...] as primeiras relações objetais com os pais (ou substitutos) são de tipo passivo [...] a criança quer retribuir e se tornar ativa em relação a eles?- acariciá-los, dominá-los e vingar-se deles. Dessa forma, abrem-se para sua libido quatro saídas possíveis: a passividade em direção à mãe ou ao pai e a atividade em direção a ambos. É no terreno dessa situação que surge o Complexo de Édipo[18].

 

Segundo Freud[19], na fase fálica, o período de maior intensificação do Édipo e de seu desfecho, a criança, ao perceber a diferença anatômica, num primeiro momento recusa a percepção e mantém a crença na universalidade do pênis, mas aos poucos chega à conclusão de que existe uma ameaça de perda narcísica corporal. Como efeito desse processo, a criança ressignifica antigas ameaças e perdas que se inscrevem como angústia de castração, fazendo o menino "sair" do Édipo, ao renunciar aos desejos edípicos por interesses narcísicos.

 

Freud afirma que, na relação entre Édipo e complexo de castração, "salta à vista uma diferença entre os sexos"[20]. Ele supõe um caminho mais complexo para a menina na medida em que ela precisaria mudar de objeto e de zona erógena predominante para entrar no Édipo. A menina, diante da percepção da diferença anatômica, reconheceria a própria castração como um fato, uma ferida narcísica, o que seria vivido como o golpe final que a afastaria da mãe e, finalmente, ela se viraria em direção ao pai, ou seja, entraria no Édipo.

 

O complexo de castração prepara o complexo de Édipo em vez de destruí-lo; através da influência da inveja do pênis a menina é pressionada a desfazer a ligação com a mãe e entra na situação do Édipo como se esta fosse um porto seguro. Com a ausência da angústia de castração, falta o motivo principal que havia pressionado o menino a superar o complexo de Édipo[21].

 

Isso explicaria o suposto supereu mais frágil na mulher. Dessa forma, o grande temor da mulher na vida adulta seria o da perda de amor, diferente do homem, no qual a angústia de castração se expressaria como temor do supereu.

 

Nessa formulação existem algumas confusões importantes. Primeiro parece que Freud coloca o Édipo como uma escolha preferencialmente heterossexual, ainda que ele reconheça o Édipo completo. Outro engano aqui é dizer que a menina aceita a castração como fato, como se a castração fosse real e não simbólica, fazendo uma acoplagem do falo e do pênis e naturalizando no corpo da menina uma desigualdade construída há séculos. Como aponta Sigal[22] e Alonso[23], nos textos das décadas de 1920 e 1930 Freud parece universalizar a inveja do pênis como condição da posição feminina e como traço estruturante das mulheres, posição distinta da assumida em 1917 ao formular as equações simbólicas de forma mais fluida e menos hierárquica. Isso tudo além da ideia infundada (e até violenta[24]) de que o prazer do clitóris deveria ser abandonado e deslocado para a vagina, supondo que o prazer do clitóris fosse masculino-ativo e separado do da vagina, feminino-passivo.

 

J. Benjamim[25] diz que o Édipo feminino em Freud excluiu "o desejo-inveja de ser como a mãe, assim como o desejo ativo pelo pai", restando a ferida narcísica da castração e o desejo passivo como a única saída feminina. Ela levanta a hipótese de que esta cisão inicial (entre a fase pré-edípica e o Édipo) na formulação freudiana deve-se à dificuldade de Freud em reconhecer a identificação do menino pré-edípico com a mãe e o desejo ativo da menina em relação ao pai, "sem que esse desejo seja mediado de forma narcisista pela inveja do pênis". Dessa forma, nos textos de Freud sobre a feminilidade, predomina a hipótese de que a feminilidade consiste em amar o pai numa posição passiva, e que a diferença sexual equivale à orientação heterossexual.

 

A diferença sexual não se reduz à anatomia, tampouco ao lugar sócio-histórico. Há que se levar em conta os processos inconscientes de identificação e de escolha objetal na constituição psíquica da criança e na construção da identidade de gênero e da posição sexuada. Considerar também os processos inconscientes de cada adulto que ocupará as funções parentais diante cada filha(o) é de uma singularidade complexa.

 

Édipo e feminismos?- problematizações e aberturas

Quais efeitos a conceitualização do complexo de Édipo produz na teorização e na escuta clínica sobre o feminino e as mulheres? Sigal propõe reconsiderar alguns elementos, como a primazia do falo, e fazer uma leitura menos familiarista do Édipo, mas sustenta a "necessidade de manter o Complexo de Édipo como um elemento fundamental de passagem na linha da sexuação e das identificações secundárias"[26].

 

A questão é que manter o Édipo como elemento fundamental abarca uma rede de conceitos intrincados, e por isso a imagem de decantar me parece interessante. Como manter esse conceito e reconsiderar a primazia do falo, por exemplo? Como mantê-lo intocável ao sermos atravessados pelo pensamento pós-colonial, como Grada Kilomba[27] ao retomar Fanon dizendo que o Édipo é virtualmente ocidental? O que um processo de descolonização do pensamento poderia produzir na teoria psicanalítica?

 

Tanto na estrutura edípica da história singular do sujeito sexuado, assim como na organização sociocultural e política, há a noção de que a função paterna interdita o desejo materno, que a civilização interdita a barbárie, que a abstração e a palavra regulam o corpo e a sensorialidade. Alonso e Fuks afirmam ser preciso uma leitura crítica desse aspecto (binário e hierárquico) pois, "no seio do patriarcado, a forma de pensar a diferença dos sexos é tomando o masculino como modelo e deixando o feminino como negativo, ausente ou faltante, e também identificando o masculino com o simbólico e o feminino com a natureza"[28]. Como diz Butler, "a relação binária entre cultura e natureza promove uma relação de hierarquia em que a cultura impõe significado livremente à natureza, transformando-a, consequentemente, num Outro a ser apropriado para seu uso ilimitado"[29].

 

Sobre essa binariedade hierárquica, Martins (Parente) coloca uma questão importante sobre a nomenclatura[30] usada pela psicanálise na conceituação do Édipo e da função paterna:

 

Se com a morte do Pai estrutura-se a renúncia ao gozo absoluto em nome da Lei, só com ela também se torna possível o tempo trágico, no qual se reitera compulsivamente o Ideal de eu, que não deixa de estar marcado por traços identificatórios com um pai tirano que dispunha das mulheres, gozava sozinho e era autor de violências desmedidas. Que esse seja o contorno ou a borda de um vazio no qual se desenha o desejo não é sem consequências, especialmente para as mulheres que vivem sob o patriarcado impresso nessas linhas (grifo meu)[31].

 

Interessante questão sobre os conceitos falocêntricos. Precisaríamos mudar os termos ou seria suficiente ampliar a polivalência do significante? Kehl aborda esta perspectiva reafirmando que "o falo é o símbolo vazio que institui o desejo e barra o gozo do Outro". Segundo ela: "contra a inveja fálica, o falo. A instauração de novas faces do falo na cadeia simbólica, constituídas por identificação ao pai (e aos novos atributos fálicos da mãe), não faz da mulher um homem: em análise, qualquer sujeito descobre que um falo não é um pênis"[32] (grifo meu). A parte da citação grifada aponta o engodo quando mantemos as figuras imaginárias da família nuclear para nomear funções simbólicas.

 

Seguindo na linha de sustentar as tensões dentro da psicanálise e nos campos de interlocução, Caffé salienta que um conceito pode variar de sentido e de efeito a partir dos diferentes manejos teóricos e clínicos de quem os utiliza, e aborda essa perspectiva na qual "podemos tomar as diferentes posições nos lugares em que elas coexistem, ou seja, no lugar em que se implicam, ou até mesmo se engajam". Em relação aos conceitos que estamos discutindo aqui, ela diz que "parece certo que o Édipo não é, hoje, um conceito ordenador e uma referência inquestionável para os diagnósticos clínicos. O que não quer dizer que ele esteja superado, ou que não opere mais"[33]. Ou seja, será que podemos pensar o Édipo como um organizador estruturante da sexualidade, do psiquismo e do desejo, mas não o único?

 

No caminho de decantar e desconstruir universalidades, Caffé nos diz algo fundamental, que "os conceitos são ações estratégicas sobre o mundo [...] e não são entidades ontológicas imutáveis, e sim realidades voláteis"[34]. Ela destaca que os conceitos imbricados no Édipo (pulsão, sexualidade, identificação) já apontam uma crítica dessa leitura produtora de normatizações, pois são conceitos que abarcam a noção de multiplicidade e de pluralidade.

 

Jo Gondar também fala dessa "dupla dimensão de leitura" que há em Freud: aquele Freud que conceitualizou a inveja do pênis, o supereu mais frágil nas mulheres e a maternidade como o caminho normal para a feminilidade, e o Freud da pulsionalidade parcial perverso polimorfa e de toda a multiplicidade que os conceitos de pulsão e de inconsciente abarcam.

 

A autora aponta que também em Lacan se mantém uma lógica binária, reconhecendo que ele produz uma leitura inédita e mais complexa em relação à feminilidade ao pensar "a mulher não pela inveja do pênis ou pela maternidade, mas por uma modalidade própria de gozo?- um gozo a mais". Entretanto, "em vez da inveja, ligada à condição de menos, o gozo ligado à condição de mais"[35].

 

Segunda ela, Lacan "sai da lógica do complemento entre masculino e feminino e adentra a lógica do suplemento [...] O feminino é um suplemento do masculino, situando-se para além dele, marcando o limite da ordem fálica, do simbólico, do todo". Vale salientar a nomenclatura patriarcal nos conceitos lacanianos (função paterna, metáfora paterna, desejo materno, Nome do Pai)[36], nos quais muitas vezes se misturam as funções e as figuras que encarnam as funções.

 

Diferença sexual e tramas identificatórias

Como pensar o Édipo ressignificando a noção de primazia do falo sendo que a fase fálica é estruturante do conflito edipiano? Como pensar a diferença anatômica, que, como bem coloca Preciado[37], figura mas não define a diferença sexual, como uma dessemelhança e não como uma desigualdade numa hierarquia binária de valoração? Seria possível, como propõe Ayouch, pensar que a percepção da diferença anatômica na fase fálica é uma metáfora a partir das teorias sexuais infantis do menino do século XIX, e portanto, não deve ser tomada em sua literalidade? "Literalizada dessa maneira, esta diferença apaga a possibilidade de pensar qualquer outra diferença?- de cultura, de classe, de ideologia?- ou qualquer diferença dentro do mesmo gênero"[38].

 

Como já apontara Laplanche, a identidade de gênero precede a percepção da diferença anatômica, ideia que pode ser encontrada já em textos freudianos. A psicanálise, além de distinguir sexo e gênero, também diferencia o sexuado do sexual[39], sendo o primeiro referente à diferença entre os sexos, e o segundo o campo da sexualidade e da pulsão. Incluir o conceito de gênero no pensamento psicanalítico significa pensar que a designação de gênero é afetada pelo inconsciente, pela sexualidade e pelo conflito psíquico. Podemos supor, portanto, que, dependendo do momento histórico e cultural, a desvalorização da mulher e da feminilidade preexiste ao momento edípico, marcando de forma radical o processo de sexuação.

 

Interessante podermos nos perguntar se na fase fálica seria a representação do órgão sexual feminino que estaria ausente (recalcada ou não inscrita[40]) ou se não seria a representação do outro, da alteridade, da diferença (anatômica também, mas não apenas). Se continuarmos a associar, na equação simbólica, o falo com o pênis[41] e o homem com o Um, com o sujeito, com o sistema de representação, com o simbólico, a mulher permanece no lugar do Outro, do objeto, do irrepresentável, da natureza?- outro gozo, outro registro, outro sexo.

 

As mulheres, ao buscarem o lugar de fala, se descolam desse lugar secundário para procurar protagonismo e representatividade em um movimento afirmativo[42]. Entretanto, a busca por representatividade pode reforçar a noção de identidade, que conduz à ideia de uno, de idêntico. Por isso identidade não é, em si, um conceito psicanalítico. Em relação a pensar o feminismo como uma luta identitária, Butler critica a universalidade da identidade una da mulher ou mesmo a universalidade do patriarcado. Ela aponta "os limites necessários da política de identidade"[43], afirmando a necessidade de manter um pensamento crítico em relação às categorias identitárias, ainda que reconheça a importância das reinvindicações representativas. Essa posição vem ao encontro com uma escuta psicanalítica que me interessa abordar, quando ela fala da construção variável de identidade.

 

Essa ideia pode ser encontrada em Freud quando ele formula o complexo de Édipo completo, as tramas singulares de identificações nesse processo, e mesmo as díades atividade?- passividade e masculinidade?- feminilidade como movimentos e posições (ou posições em movimento) pulsionais presentes em homens e mulheres. Mas também encontramos as passagens nas quais o Édipo aparece como organizador normativo produzindo uma identidade sexual definitiva (e positivada quando heterossexual).

 

Concordo com Ayouch quando ele retoma que para a psicanálise não existe uma "identidade sexual e sexuada definitiva, mas identificações que resultam de processos psíquicos e de relações do sujeito com o(a) outro(a)". Ele sustenta que a ideia de "uma identidade de gênero ou identidade sexual unificada é uma formação defensiva contra a multiplicidade pulsional, a ambivalência, e o conflito próprios ao inconsciente"[44].

 

Assumir uma posição sexuada implica assumir uma identidade de gênero, uma escolha objetal e um modo de gozo? O que define uma mulher? Pensar no termo "mulheres" como significante político, como propõe Butler, é pensar que enquanto significante "não pode ser radicalmente representativo", afinal "produz a expectativa de unidade, um reconhecimento pleno e definitivo que nunca pode ser alcançado"[45].

 

Essa autora propõe a "função performativa e aberta do significante" para construirmos uma "noção democrática de possibilidades futuras". Ela diz que: "a instabilidade constitutiva do termo (mulheres), sua incapacidade de descrever sequer o que nomeia, é produzida precisamente por aquilo que é excluído a fim de que a determinação possa acontecer"[46].

 

Se cair no essencialismo, o termo perde sua potência performativa, que pode abrir rearticulações imprevistas. Isso nos incita a pensar os feminismos mais em processo contínuo de construção identitária do que numa busca por uma unidade prometida (a mulher como essência). Acho potente a proposta de Butler ao pensar o significante político como performativo, no sentido de que este carrega uma história de significantes ressignificados e rearticulados.

 

Questionar as categorias identitárias não significa dispensá-las, afinal é preciso reconhecer "a urgência vital do reflexo identitário"[47] e, ao mesmo tempo, manter o campo de tensões aberto e em movimento. Afinal toda identidade (pensada aqui como instável) é um "conjunto provisório de exclusões", portanto abarca uma disputa política permanente, "para aprender a viver a contingência do significante político em uma cultura de contestação democrática"[48].

 

Uma posição clínico-política

Essa noção de democracia remete ao que Derrida fala sobre o mal de arquivo: "A democratização efetiva se mede sempre por esse critério essencial: a participação e o acesso ao arquivo, à sua constituição e à sua interpretação"[49]. Se a luta feminista por políticas afirmativas é uma luta identitária (tomando identidade como instável) e abarca uma disputa política que sustenta conflitos num campo democrático, me pergunto como isso reverbera no campo psicanalítico.

 

Segundo Derrida, "ninguém melhor que Freud mostrou como este princípio arcôntico[50], isto é, paternal e patriarcal, não se colocava senão se repetindo e não retornava para se re-colocar senão no parricídio recalcado ou reprimido no nome do pai morto. O arcôntico é a tomada do poder do arquivo pelos irmãos"[51]. O autor salienta, por outro lado, que Freud não escapou à lógica patriarcal.

 

A lógica patriarcal e o "patriarquivo"[52] estão enraizados na psicanálise, no pensamento científico, na linguagem, no simbólico, na cultura. Como diz Kilomba, "o uso do masculino genérico para designar humanidade reduz automaticamente a existência das mulheres à não existência"[53].

 

A (in)conclusão alcançada nesse mapeamento de algumas tensões entre Édipo e feminismo aponta para desdobramentos possíveis. Por um lado, o reconhecimento dessa díade binária hierárquica na conceitualização sobre a mulher e o feminino na psicanálise, o que implica assumir que a psicanálise também foi escrita e pensada em cartografias patriarcais. E que isso produziu conceitos com raízes misóginas e consequentes efeitos na relação da psicanálise com o feminismo. Por outro lado, reconhecer a potência psicanalítica que segue revolucionária e múltipla ao pensar o corpo pulsional e ao escutar a singularidade na construção das subjetividades, sempre em transformação. O que movimentar a partir daqui?

 

Uma questão movimentada no debate atual que foi abordada no decorrer do texto é esta polaridade da diferença e da identidade. O lugar ocupado pela diferença sexual e sua inscrição psíquica na psicanálise contemporânea, ainda que tenha sido um grande aporte da psicanálise, pois antes do século XVIII imperava o modelo do sexo único[54], não destituiu de fato a ideia de sexo único, pois ela se colocou como desigualdade hierárquica, inclusive na teoria psicanalítica. Isso nos convida, a cada retorno aos textos freudianos e pós-freudianos, a encontrar essas tensões e transmiti-las, fazendo circular e possibilitando nos questionar sobre possíveis transformações conceituais e clínicas. E, quanto ao lugar ocupado pela identidade, me parece eticamente importante nos posicionarmos reconhecendo a legitimidade e a importância política das lutas identitárias, reconhecermos que os feminismos denunciam violência e injustiça, que eles têm uma potência transformadora, e atuam na necessária função de criar lugar de fala e representatividade, e de positivar o feminino. Também nos mantermos presentes e críticos, com a escuta atenta pois, por vezes, corre-se o risco de, ao positivar o feminino, provocar uma re-essencialização da mulher no discurso. Vale pensar no que diz Derrida sobre o caráter espectral de cada conceito, e ousar desdobrá-los, reencontrá-los, desconstruí-los (e se necessário, descartá-los[55]), para que, como ele diz, se possa abrir e democratizar os arquivos conceituais e institucionais da cultura humana (o que obviamente inclui a psicanálise).


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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